Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagra operação contra esquema que movimentou mais de R$ 20 milhões.
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou uma megaoperação contra um esquema de fraudes que usava inteligência artificial para criar vídeos falsos da atriz e modelo Gisele Bündchen, além de outras celebridades brasileiras. A ação, batizada de “Modo Selva”, teve como alvo uma organização criminosa que utilizava a tecnologia deepfake para produzir conteúdo que fazia parecer que a modelo estava recomendando produtos que, na realidade, não existiam. Segundo as investigações, o esquema movimentou mais de R$ 20 milhões, e a Justiça autorizou o congelamento de ativos que podem chegar a R$ 210 milhões, além da emissão de 26 mandados judiciais, entre prisões e buscas em cinco estados do país.
Como funcionava o esquema de deepfake
O golpe começou com um vídeo manipulado que fazia parecer que Gisele Bündchen estava divulgando um “kit antirrugas grátis”, produto que nunca existiu de fato. A tecnologia de deepfake permite reproduzir com alto grau de realismo o rosto, a voz e até as expressões faciais de uma pessoa real, o que tornava o conteúdo altamente convincente para quem assistia. O material era divulgado principalmente através de perfis falsos no Facebook e no Instagram, direcionando as vítimas interessadas na promoção para sites fraudulentos, onde eram induzidas a pagar taxas de frete para supostamente receber o produto anunciado.
Além de Gisele Bündchen, outras celebridades brasileiras também tiveram a imagem utilizada pelos criminosos para dar credibilidade a produtos fictícios, entre elas Angélica Huck, Juliette, Maísa e Sabrina Sato. A escolha por rostos conhecidos do público não é aleatória: quanto maior a familiaridade da vítima com a pessoa retratada no vídeo, maior a chance de que ela confie na recomendação e avance no processo de compra, mesmo que o produto ou a promoção nunca tenham sido de fato endossados pela celebridade em questão.
A investigação também revelou que os criminosos organizavam a distribuição do conteúdo de forma bastante estruturada, criando dezenas de perfis diferentes para ampliar o alcance das publicações e dificultar o trabalho de remoção por parte das próprias redes sociais. Essa pulverização de contas fazia com que, mesmo depois da denúncia e da retirada de um perfil, outros continuassem ativos, reforçando a circulação do material fraudulento por semanas seguidas antes que a operação policial fosse deflagrada.
O avanço dos golpes com inteligência artificial no Brasil
O caso de Gisele Bündchen não é isolado. Nos últimos meses, diversos outros episódios envolvendo deepfakes de figuras públicas brasileiras vieram à tona, incluindo tentativas de golpe que usaram a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da influenciadora Virginia Fonseca e do jogador Vinícius Júnior para simular ligações e vídeos falsos. Especialistas em segurança digital alertam que a chamada clonagem de voz, técnica que reproduz a fala de uma pessoa a partir de poucos segundos de áudio, também tem se tornado uma ferramenta comum entre criminosos, permitindo simular pedidos urgentes de dinheiro em nome de conhecidos ou familiares das vítimas.
Casos semelhantes já atingiram até empresas de grande porte fora do Brasil, com criminosos utilizando deepfakes de executivos para tentar convencer funcionários a realizar transferências bancárias de alto valor. No Brasil, o crescimento desse tipo de fraude tem levado autoridades a reforçar campanhas de conscientização, orientando o público a desconfiar de promoções vinculadas a supostas recomendações de celebridades, especialmente quando envolvem pagamento antecipado de qualquer valor, mesmo que pequeno, como taxas de frete ou de liberação de prêmios.
Outro fator que preocupa especialistas é a facilidade crescente de acesso a ferramentas capazes de gerar esse tipo de conteúdo, o que reduz o custo e o conhecimento técnico necessário para aplicar esse tipo de fraude. Isso significa que golpes semelhantes ao aplicado com a imagem de Gisele Bündchen tendem a se multiplicar, atingindo desde grandes celebridades até pessoas comuns que utilizam redes sociais para divulgar pequenos negócios, ampliando o alcance potencial desse tipo de crime digital no país.
Como o público pode se proteger desse tipo de fraude
Diante do avanço desses golpes, especialistas recomendam desconfiar de vídeos que anunciam produtos gratuitos ou promoções milagrosas atreladas ao nome de uma celebridade, principalmente quando o conteúdo circula por perfis que não são as contas oficiais verificadas do artista. Verificar a autenticidade da fonte antes de clicar em qualquer link, evitar informar dados bancários em sites desconhecidos e desconfiar de qualquer cobrança antecipada são medidas simples que ajudam a reduzir o risco de cair nesse tipo de armadilha digital.
Também vale observar detalhes que muitas vezes denunciam a manipulação, como movimentos labiais levemente dessincronizados com o áudio, iluminação inconsistente no rosto da pessoa retratada ou erros pontuais na pronúncia de palavras. Embora a tecnologia esteja cada vez mais sofisticada, esses sinais ainda aparecem em boa parte dos vídeos fraudulentos, e prestar atenção a eles pode ajudar o público a identificar conteúdo falso antes de fornecer qualquer dado pessoal ou financeiro.
A Operação Modo Selva reforça que investigações desse tipo seguem avançando no país, e que o uso indevido da imagem de famosos para aplicar golpes deve continuar sendo alvo de atenção das autoridades policiais nos próximos meses. Para o público, o episódio funciona como um alerta adicional sobre os riscos crescentes de fraudes digitais que se aproveitam da popularidade de celebridades para ganhar credibilidade junto às vítimas.
Fonte consultada: CNN Brasil
