O debate sobre saúde preventiva no Brasil avançou consideravelmente em algumas áreas, mas a saúde ocular infantil permanece como uma das dimensões menos estruturadas dentro das políticas públicas de atenção básica. Enquanto a vacinação e o acompanhamento nutricional foram institucionalizados como práticas sistemáticas dentro das redes de saúde e educação, a triagem visual nas escolas públicas ainda depende, na maior parte dos municípios brasileiros, de iniciativas pontuais e descontinuadas.
O Projeto Visão em Dia, programa do Instituto Visão Conectada criado por Franco Douglas Lima Dias, é um exemplo do que é possível construir dentro dessa lacuna. Com mais de 5 mil atendimentos realizados, cerca de 2 mil óculos distribuídos e 18 unidades de ensino contempladas na região do Alto Tietê, o programa oferece um modelo concreto de como a triagem visual itinerante pode funcionar dentro das escolas públicas com consistência e com resultados documentados.
O que o Brasil pode aprender com essa experiência vai além de um único programa.
O que falta para que a triagem visual seja sistemática nas escolas públicas?
A resposta envolve três dimensões complementares. A primeira é política: a criação de protocolos nacionais que incluam a triagem visual como parte obrigatória da atenção à saúde escolar. A segunda é orçamentária: a garantia de financiamento para que esses protocolos possam ser implementados de forma ampla e uniforme. A terceira é operacional: o desenvolvimento de modelos de atendimento que consigam chegar às populações mais vulneráveis com a consistência necessária para produzir impacto real.
O Projeto Visão em Dia opera na terceira dimensão com um modelo que já demonstrou funcionar. Conforme aponta a trajetória do Instituto Visão Conectada, Franco Douglas Lima Dias construiu uma estrutura que vai às escolas, realiza triagens individualizadas e entrega correções no mesmo dia do atendimento. Esse modelo é replicável e pode servir de referência para iniciativas semelhantes em outras regiões.
O que os diagnósticos do programa revelam sobre a saúde ocular na rede pública?
Os achados documentados pelo Projeto Visão em Dia ao longo de seus ciclos de atuação oferecem um retrato parcial, mas revelador, da saúde ocular entre crianças e jovens da rede pública brasileira. Em cada escola visitada, o programa identificou casos que o sistema convencional não havia alcançado. Miopia e astigmatismo não corrigidos aparecem com frequência significativa. Condições mais complexas, como o ceratocone, identificado em dois alunos da APAE de Ferraz de Vasconcelos, evidenciam que a ausência de triagem especializada tem consequências que vão além do desconforto visual.

Na avaliação de Franco Douglas Lima Dias, esses dados não são uma anomalia de Ferraz de Vasconcelos. São uma amostra do que provavelmente existe em cada região onde nenhuma triagem sistemática chegou.
Como iniciativas privadas e do terceiro setor podem complementar políticas públicas de saúde ocular?
A experiência do Projeto Visão em Dia aponta para um modelo de complementaridade em que iniciativas privadas e do terceiro setor operam com a agilidade e a proximidade que o Estado nem sempre consegue alcançar. Enquanto uma política pública de triagem visual sistemática não existe de forma ampla no Brasil, programas como o Visão em Dia preenchem o espaço que essa política deveria ocupar, chegando às crianças que mais precisam com uma estrutura que o sistema convencional não oferece.
Esse modelo não substitui a responsabilidade do Estado. Mas demonstra, com resultados concretos, que a solução existe e que é possível implementá-la onde a vontade e a estrutura estiverem disponíveis.
O que o modelo do Visão em Dia oferece como referência para outras regiões?
A estrutura desenvolvida pelo Instituto Visão Conectada ao longo dos ciclos de atuação do Projeto Visão em Dia é, em sua essência, exportável. O modelo combina equipe especializada, equipamentos adequados para triagens completas e integração entre diagnóstico e entrega de correção em uma mesma ação. Cada um desses elementos pode ser reproduzido em outras regiões com o mesmo perfil de demanda.
Para Franco Douglas Lima Dias, o que foi construído em Ferraz de Vasconcelos é tanto uma resposta local quanto uma demonstração do que é possível fazer em escala. O próximo passo é levar essa demonstração para onde ela ainda precisa chegar.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
