O câncer de pulmão é o tipo de câncer que mais mata no mundo, e, ainda assim, até muito recentemente, o Brasil não tinha nenhuma diretriz nacional formal orientando quem deveria se submeter a um rastreamento preventivo da doença. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues destaca que essa lacuna só foi preenchida em 2024, quando a Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e o Colégio Brasileiro de Radiologia publicaram, pela primeira vez, recomendações conjuntas para o rastreamento dessa doença por meio de tomografia computadorizada de baixa dose.
Diferente da radiografia de tórax tradicional, que durante décadas não conseguiu comprovar redução de mortalidade quando usada como rastreamento populacional, estudos com tomografia de baixa dose demonstraram redução de mortalidade por câncer de pulmão em torno de 20% entre pessoas classificadas como de alto risco. Entender quem se enquadra nesse grupo, como o exame funciona na prática e por que o Brasil demorou tanto para formalizar essa recomendação ajuda a explicar uma lacuna silenciosa na prevenção de uma das doenças mais letais da medicina atual.
Quem exatamente se beneficia do rastreamento com tomografia de baixa dose?
As diretrizes brasileiras publicadas em 2024 recomendam a triagem anual para pessoas entre 50 e 80 anos com carga tabágica equivalente a 20 anos fumando um maço de cigarros por dia, que ainda fumam ou que pararam de fumar há menos de 15 anos. Essa faixa etária foi ajustada para começar aos 50 anos, e não mais aos 55 como em recomendações anteriores, seguindo uma tendência já observada também nos Estados Unidos, onde a atualização de suas diretrizes reduziu a exigência de carga tabágica de 30 para 20 anos-maço, dobrando o número de pessoas elegíveis para o exame.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa ampliação de critérios reflete um aprendizado importante da medicina preventiva: restringir demais o público elegível, buscando apenas os casos de risco extremamente alto, acaba deixando de fora pessoas que também se beneficiariam do diagnóstico precoce. Para ele, encontrar o equilíbrio certo entre amplitude de cobertura e uso responsável de recursos é um desafio recorrente em qualquer programa de rastreamento populacional.
Como a tomografia de baixa dose consegue detectar tumores tão pequenos?
O exame utiliza uma técnica que reduz significativamente a dose de radiação em comparação à tomografia convencional, mantendo ainda assim resolução suficiente para identificar nódulos pulmonares muito pequenos, muitas vezes anos antes de causarem qualquer sintoma perceptível. Para organizar a interpretação desses achados, foi criado um sistema próprio de classificação chamado Lung-RADS, que categoriza cada nódulo conforme seu grau de suspeita e orienta a conduta médica seguinte, incluindo a necessidade de acompanhamento por imagem ou investigação adicional imediata.

Na avaliação do Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, essa padronização é essencial porque nódulos pulmonares pequenos são extremamente comuns como achados incidentais, e a maioria não representa câncer. Ele reforça que interpretar corretamente esses achados, diferenciando o que exige apenas acompanhamento do que exige investigação imediata, depende diretamente da experiência do radiologista responsável pela leitura do exame.
Por que o Brasil demorou tanto para publicar uma diretriz nacional sobre o tema?
Grande parte da evidência científica que sustenta o rastreamento com tomografia de baixa dose vem de estudos conduzidos nos Estados Unidos, e adaptar essas recomendações à realidade brasileira exige ponderar diferenças relevantes, como o perfil de tabagismo da população local, o custo de implementação em larga escala e a capacidade de infraestrutura para lidar com os falsos positivos que qualquer programa de rastreamento inevitavelmente gera. Somente com a maturidade acumulada de estudos internacionais e nacionais foi possível justificar uma recomendação formal conjunta entre as principais sociedades médicas envolvidas.
Para o ex-secretário de Saúde, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, essa cautela na adaptação de diretrizes internacionais é compreensível, mas também representa um custo real em vidas perdidas enquanto a formalização não acontece. Ele nota que o Brasil precisa acelerar seu próprio processo de geração de evidência populacional, em vez de depender quase exclusivamente de dados de outros países para justificar decisões de saúde pública que afetam diretamente sua própria população.
Quais são os principais riscos e limitações desse tipo de rastreamento?
Assim como qualquer programa de rastreamento por imagem, a tomografia de baixa dose também carrega risco de resultados falso-positivos, levando a investigações adicionais desnecessárias, além do próprio risco cumulativo de exposição à radiação ao longo de exames anuais repetidos por muitos anos. A decisão de iniciar o rastreamento também deve ser interrompida quando a pessoa completa 15 anos sem fumar ou desenvolve alguma condição de saúde que limite significativamente sua expectativa de vida ou capacidade de realizar tratamento cirúrgico curativo, caso um câncer seja encontrado.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que a decisão de rastrear deveria sempre envolver uma conversa clara entre médico e paciente sobre esses riscos e benefícios, e não apenas a indicação automática do exame para quem se enquadra nos critérios de idade e histórico de tabagismo. Para ele, essa mesma lógica de decisão compartilhada deveria se tornar padrão à medida que o programa se expande pelo país.
