Estudo identificou 18 perfis artificiais que simulam celebridades e formadores de opinião, com a maioria escondendo a origem feita por inteligência artificial.
Um fenômeno digital tem gerado dúvidas entre usuários de redes sociais no Brasil: como saber se aquele influenciador carismático que comenta política, saúde pública ou economia é, na verdade, uma criação de inteligência artificial e não uma pessoa real? Um levantamento do Observatório de IA nas Eleições, em parceria com institutos de pesquisa de dados, identificou ao menos 18 perfis de influenciadores digitais artificiais ativos no país, a maioria deles produzindo conteúdo enganoso sem informar claramente sua origem sintética. O caso mais emblemático é o de “Dona Maria”, avatar que acumula centenas de milhares de seguidores e já publicou mais de 400 vídeos. A descoberta reabre um debate urgente sobre transparência digital, especialmente em um ano marcado por eleições presidenciais e pela ascensão acelerada de ferramentas de geração de conteúdo por IA.
Como funcionam os influenciadores fictícios criados por inteligência artificial
O estudo conduzido pelo Observatório de IA nas Eleições mapeou um padrão preocupante de uso de personagens digitais no debate público brasileiro. O levantamento, divulgado em parceria com a Data Privacy Brasil e o Aláfia Labs, identificou pelo menos 18 perfis de influenciadores digitais artificiais no Brasil no período entre janeiro de 2025 e abril de 2026. Segundo a pesquisa, 61% desses avatares não informam ao público que seus conteúdos são produzidos por inteligência artificial, apesar das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral, e 78% dos perfis disseminam desinformação, com posições simplistas e discursos políticos extremistas. Essas personagens são projetadas para parecer cidadãos comuns, comunicadores ou até lideranças populares, dificultando que o público comum identifique a origem artificial do conteúdo que consome diariamente. CONTEECONTEE
O caso mais citado pelo levantamento é o do avatar conhecido como “Dona Maria”. Essa personagem, criada artificialmente para criticar o governo federal, ganhou notoriedade entre 2025 e 2026, publicando mais de 400 vídeos desde sua criação. No Instagram, o perfil já acumula 726 mil seguidores, um número que supera o de muitos políticos com mandato no Congresso brasileiro, com taxas de engajamento elevadas entre criadores de conteúdo que efetivamente aparecem em vídeo. O perfil foi identificado pela primeira vez pelo observatório em agosto de 2025 e, além de criticar o governo, também mira ministros do Supremo Tribunal Federal, incluindo Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso. A repercussão do caso já motivou ações formais na Justiça Eleitoral, evidenciando que o problema deixou de ser apenas uma curiosidade tecnológica e passou a ter consequências jurídicas concretas. Daniel Nunes + 2
Por que esses avatares preocupam a Justiça Eleitoral em 2026
A principal dúvida que esse fenômeno levanta entre eleitores é sobre a legalidade do uso desses avatares durante o período eleitoral. O PT, o PV e o PCdoB acionaram o Tribunal Superior Eleitoral para pedir a suspensão dos perfis ligados à personagem “Dona Maria”, entre outros avatares com características semelhantes. Atualmente, a Justiça Eleitoral proíbe a desinformação eleitoral, mas ainda não existe uma lei específica sobre o uso de inteligência artificial no período eleitoral, nem uma exigência clara de transparência das ferramentas de IA. Esse vácuo regulatório é justamente o que tem permitido a proliferação de personagens fictícios sem identificação adequada nas plataformas mais populares entre o público brasileiro. CNN BrasilTribuna do Sertão
Apesar da lacuna legal específica, já existe uma proposta em tramitação que pode mudar esse cenário nos próximos meses. Está em tramitação no Congresso o Projeto de Lei 2.688/2025, que institui o Marco Regulatório do Desenvolvimento e Uso da Inteligência Artificial no Brasil, prevendo prisão de dois a cinco anos mais multa para quem utilizar IA para manipular eleições, opinião pública ou processos judiciais mediante desinformação sistemática e em larga escala. Resoluções recentes do TSE já determinam que plataformas implementem ferramentas de rotulagem e detecção de conteúdo gerado por inteligência artificial, de forma que o usuário saiba, antes de consumir, que aquele material é sintético. A regra também afeta diretamente influenciadores reais: ao utilizar um avatar gerado por IA ou sintetizar a própria voz para transmitir mensagens políticas, a obrigação de rotulagem passa a ser expressa e imediata. Tribuna do Sertão + 2
Como identificar um influenciador criado por inteligência artificial
Para o público em geral, reconhecer um avatar de IA nem sempre é tarefa simples, já que a qualidade técnica desses conteúdos evoluiu rapidamente. A pesquisa apontou que a maior parte das publicações analisadas foi localizada no TikTok e no Instagram, ambos com seis registros, seguidos pelo YouTube, com três casos identificados, além de presença em X, Kwai e Facebook. Do total de perfis mapeados, sete apresentavam algum tipo de sinalização de que o conteúdo foi produzido com uso de IA, seja por marcadores das próprias plataformas, marcas d’água das ferramentas utilizadas ou hashtags inseridas nas publicações, embora esses avisos nem sempre fossem facilmente perceptíveis. Isso significa que a responsabilidade de identificar esses sinais discretos acaba recaindo sobre o próprio usuário, que precisa observar detalhes como movimentos faciais pouco naturais, repetição excessiva de padrões de fala e ausência de informações verificáveis sobre quem está, de fato, por trás do perfil. CONTEECNN Brasil
O fenômeno não se restringe apenas ao campo político. A estratégia de avatares de IA não se limita a um único lado do espectro político, alcançando também outras esferas de debate público nas redes sociais. Especialistas em comunicação digital recomendam que o público desconfie de perfis extremamente engajados que evitam aparições em vídeos ao vivo, entrevistas espontâneas ou interações imprevisíveis, características mais difíceis de reproduzir artificialmente. A combinação entre alta popularidade e baixa rastreabilidade de origem é, segundo analistas do setor, um dos principais indícios de que um influenciador pode não ser uma pessoa real. Daniel Nunes
O avanço de influenciadores artificiais nas redes sociais brasileiras mostra como a inteligência artificial generativa já influencia diretamente a forma como o público consome informação, opinião e até conteúdo político. Embora a tecnologia em si não seja ilegal, a falta de transparência sobre a origem sintética desses perfis é o principal ponto de atenção apontado por reguladores e pesquisadores. Com as eleições de 2026 se aproximando, a fiscalização sobre esses avatares deve se intensificar, e o usuário comum passa a ter um papel importante: questionar a autenticidade de perfis que parecem ter opiniões fortes demais para sua origem desconhecida.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
