O medo da violência tem influenciado escolhas cotidianas de grande parte das mulheres brasileiras. Uma pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostra que 98% das entrevistadas adotam estratégias para reduzir riscos no dia a dia. As mudanças envolvem desde a escolha de trajetos e horários até a decisão de frequentar ou não determinados locais.
O levantamento também aponta que 78% das mulheres ouvidas afirmam já ter sofrido algum tipo de violência. A sensação de insegurança aparece de forma mais intensa entre elas: 94% dizem se sentir inseguras diante da violência no cotidiano, enquanto o índice entre os homens é de 84%.
Realizado entre 22 e 30 de abril de 2026, o estudo ouviu 1,5 mil pessoas com 16 anos ou mais, em todas as regiões do Brasil. A margem de erro informada é de 2,8 pontos percentuais. Os resultados foram divulgados em 16 de setembro de 2026, durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, segundo a Agência Brasil.
Medo muda hábitos de lazer e convivência
Entre os efeitos mais visíveis está a redução da participação em atividades de lazer. De acordo com os dados apresentados, 62% das mulheres já mudaram hábitos de lazer por medo da violência. Além disso, 58% deixaram de ir a lugares de que gostavam, o que inclui espaços de convivência e entretenimento.
Essas decisões podem alterar a forma como as mulheres se relacionam com a cidade e com a própria rede social. Aceitar um convite, encontrar amigos, frequentar bares ou festas e voltar para casa à noite deixam de ser escolhas consideradas apenas pelo interesse ou pela disponibilidade. A percepção de risco passa a fazer parte do planejamento dessas atividades.
A pesquisa evidencia que o impacto da violência não se limita aos episódios concretos. A antecipação de uma possível ameaça também interfere na liberdade de circulação e na disposição para ocupar espaços públicos. Em vez de avaliar somente o que desejam fazer, muitas mulheres precisam considerar se o local, o horário e o caminho de volta parecem seguros.
Deslocamentos são marcados pela insegurança
Os deslocamentos pela cidade aparecem como outro ponto de preocupação. Segundo o levantamento, 94% das mulheres afirmam sentir medo ao se deslocar. Para reduzir a exposição, elas relatam estratégias como evitar determinadas áreas, não sair à noite, alterar trajetos e compartilhar a localização com pessoas de confiança.
O uso do transporte e a circulação por diferentes regiões podem, assim, ser condicionados pela sensação de segurança. A escolha de um caminho mais longo, a desistência de um compromisso ou a necessidade de avisar alguém sobre cada etapa do percurso mostram como o medo interfere em tarefas comuns.
Em publicação sobre a pesquisa, a Agência Patrícia Galvão destaca que a insegurança alcança hábitos, deslocamentos e decisões relacionadas a trabalho e estudo. O dado amplia a discussão sobre violência contra as mulheres ao mostrar que o problema também afeta oportunidades, autonomia e participação na vida urbana.
Restrição cotidiana afeta autonomia
Quando evitar lugares e horários se torna uma prática recorrente, a violência passa a produzir efeitos sobre a rotina mesmo na ausência de uma ocorrência naquele momento. A mulher pode deixar de estudar, trabalhar, encontrar pessoas ou participar de atividades por avaliar que o risco é alto demais.
Esse processo cria uma espécie de vigilância permanente. Compartilhar a localização, mudar o caminho e escolher cuidadosamente como voltar para casa são medidas de proteção adotadas diante de um cenário percebido como ameaçador. Embora possam oferecer maior sensação de controle, elas também revelam o custo social da insegurança.
Os resultados nacionais ajudam a dimensionar um fenômeno que atravessa diferentes regiões brasileiras. Como a amostra inclui participantes de todas as regiões do país, a pesquisa permite observar que o medo da violência está relacionado a decisões comuns de mobilidade, lazer e convivência, e não apenas a situações excepcionais.
Ao reunir dados sobre percepção de insegurança, experiências de violência e mudanças de comportamento, o levantamento mostra que a segurança das mulheres está diretamente ligada ao direito de circular, conviver e aproveitar a cidade. A redução dessas restrições depende de respostas capazes de enfrentar a violência e garantir que escolhas pessoais não sejam definidas pelo medo.
