Vídeo manipulado por inteligência artificial simula declarações de figuras públicas conhecidas e já fez vítimas em pelo menos treze países
Um golpe que usa inteligência artificial para clonar a imagem e a voz de personalidades conhecidas do público brasileiro voltou a circular nas redes sociais nesta semana, desta vez com um vídeo manipulado digitalmente. A técnica, conhecida como deepfake, tem sido usada de forma recorrente por criminosos para simular que rostos famosos endossam plataformas de investimento inexistentes, prometendo retornos financeiros pouco realistas em troca de valores iniciais relativamente baixos.
No caso mais recente, verificado pela Agência Lupa nesta quinta-feira (3/9), o vídeo manipulado promete ganhos de três mil a cinco mil reais por semana a partir de um investimento inicial de 550 reais, com a promessa de devolução do dinheiro caso os resultados não sejam alcançados. Por meio de busca reversa, a equipe de verificação localizou o vídeo original usado na manipulação, uma entrevista concedida anos antes, na qual a pessoa retratada não faz nenhuma menção a sistemas de investimento baseados em inteligência artificial.
Como o golpe é estruturado
O esquema não se limita ao vídeo em si. Ao clicar no link divulgado junto à peça manipulada, o usuário é direcionado a uma página que imita o layout de uma reportagem de um grande portal de notícias, mas que utiliza um endereço eletrônico completamente diferente do domínio oficial do veículo. Uma consulta a ferramentas especializadas em rastreamento de domínios mostrou que esse endereço fraudulento foi registrado em abril deste ano, o que reforça o caráter recente e ainda ativo da campanha de golpe.
A plataforma promovida no vídeo tampouco possui qualquer registro junto à Comissão de Valores Mobiliários, órgão responsável por autorizar empresas a atuar no mercado financeiro brasileiro. Uma busca no cadastro oficial não retornou nenhum resultado para o nome da suposta ferramenta, o que confirma se tratar de uma operação sem qualquer respaldo legal. Os golpistas ainda recorreram a anúncios pagos em plataformas de redes sociais para ampliar o alcance da fraude, usando um perfil falso criado alguns anos antes e cuja foto de perfil foi identificada, por ferramentas de análise de imagem, como tendo altíssima probabilidade de ter sido gerada por inteligência artificial.
Um padrão que já atingiu outras figuras públicas
Esse tipo de fraude não é um caso isolado. Nos últimos dois anos, campanhas semelhantes já usaram indevidamente a imagem de outras personalidades conhecidas do público brasileiro para promover as mesmas falsas plataformas de investimento, sempre seguindo um roteiro parecido: vídeos, entrevistas ou páginas de portais de notícias são manipulados digitalmente para simular que a pessoa recomenda a ferramenta, enquanto o nome da plataforma muda de um caso para outro.
Entre os alvos anteriores desse tipo de golpe estão comunicadores e figuras públicas de grande alcance nas redes sociais, cujas imagens foram usadas sem autorização em vídeos manipulados que circularam de forma semelhante em anos anteriores. Em todos os casos, o mecanismo se repete: aproveitar a confiança que o público deposita em rostos conhecidos para dar credibilidade a uma promessa financeira que não resiste a uma checagem básica de fontes oficiais.
Como identificar um vídeo manipulado
Especialistas em verificação de conteúdo recomendam alguns cuidados básicos diante de vídeos que prometem ganhos financeiros rápidos atribuídos a alguma celebridade ou personalidade pública. O primeiro passo é desconfiar de qualquer promessa de retorno financeiro muito acima da média do mercado, especialmente quando acompanhada de garantia de devolução do dinheiro em caso de insucesso, prática incomum em investimentos legítimos. Também vale conferir se a plataforma anunciada possui registro ativo junto à Comissão de Valores Mobiliários, consulta pública e gratuita disponível no site do órgão.
Outro sinal de alerta é observar se a notícia supostamente vinculada ao vídeo está publicada no site oficial do veículo de imprensa citado, e não em uma página com endereço parecido, mas diferente do domínio original. Em novembro do ano passado, uma investigação identificou esquemas praticamente idênticos operando em pelo menos treze países, o que reforça o caráter internacional e industrializado desse tipo de fraude, cada vez mais sofisticada com o avanço das ferramentas de inteligência artificial generativa.
Diante do avanço dessas técnicas, a recomendação que fica para o público é simples: antes de investir a partir de qualquer indicação vista nas redes sociais, mesmo quando parece vir de um rosto conhecido, o caminho mais seguro é buscar a confirmação diretamente nos canais oficiais da pessoa retratada e nos órgãos reguladores do mercado financeiro.
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